O Banquete do Rei: Devorando meus Medos para não ser Devorado pela Vida. Por: Ginildete Manaia
O Banquete do Rei: Devorando meus Medos para não ser Devorado pela Vida
Ginildete Manaia
Assistente Social, Psicanalista Clínica e Especialista em Intervenção ABA
Contemplo a imagem. No centro do meu campo de visão, a figura leonina não apenas ocupa o espaço; ela o submete. Sua postura não é de ameaça, mas de uma certeza ontológica de soberania. Ao seu flanco, a girafa e a zebra — símbolos de uma vulnerabilidade inerente diante do predador — não representam um perigo imediato, mas uma alteridade que ele tolera, ciente de sua própria supremacia. Esta cena não é meramente um registro da vida selvagem; é um espelho contundente da minha própria arquitetura psíquica e dos dilemas que permeiam a existência humana.
Neste leão, enxergo a manifestação arquetípica do meu Ego em busca da autocracia. Ele é o dono do território, a autoridade que não se deixa intimidar pela presença do "outro". Em minha clínica, observo diariamente como nós, seres humanos, tencionamos essa mesma corda bamba entre o desejo de domínio e o medo da aniquilação. Eu, enquanto sujeito, anseio por essa postura firme, por essa capacidade de sustentar o olhar diante dos desafios sociais e emocionais que tentam me devorar.
A Coroa de Espinhos da Suposta Soberania
Entretanto, minha análise não me permite a ingenuidade de ver apenas força. Sei que a coroa do "Rei da Selva" é pesada, e suas fraquezas são tão reais quanto sua imponência. Ele também é atacado. Ele também perece. Essa dualidade ressoa profundamente com os conflitos entre meu Ego e as exigências implacáveis do meu Superego. Quantas vezes, impulsionada por fantasias de superioridade e desejos reprimidos — esses "sonhos" que a psicanálise tão bem decifra —, eu me julguei invulnerável, apenas para ser confrontada pela fragilidade da minha própria condição humana?
O Território Interior: Sustentar o autodomínio exige uma coragem visceral. Para não ser devorada pelas demandas externas ou pelos meus próprios impulsos sombrios, preciso me apoderar do meu território psíquico, impondo limites com a mesma firmeza com que o leão demarca sua área. A Relação Dialética: Conviver com a zebra e a girafa — metáforas para as diversas facetas da minha vida e as pessoas que nela habitam — sem sucumbir ao conflito perpétuo exige uma sabedoria que vai além do instinto. É a arte de equilibrar a agressividade necessária à sobrevivência com a alteridade indispensável à convivência. O Veredito da Savana Psíquica
Esta imagem me impulsiona a uma reflexão inescapável: a vida social exige uma performance de força. Para ocupar o papel principal em minha narrativa e não ser demorada (pois o tempo, esse outro predador, não perdoa a hesitação), preciso internalizar essa postura leonina. Devo assumir o comando, não de forma tirânica, mas com a convicção de quem reconhece suas fragilidades, mas escolhe, deliberadamente, reinar sobre seus próprios medos.
No fim, a lição que extraio da savana e aplico em minha própria psique é clara: é preciso ter a firmeza necessária para não ser devorada, e a audácia de agir para não ser, eu mesma, a devoradora de minhas próprias oportunidades.
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