O Olhar Ético: A Imparcialidade como Ferramenta de Transformação.
O Olhar Ético: A Imparcialidade como Ferramenta de Transformação
Por Ginildete Manaia Assistente Social, Técnica em Reabilitação de Dependência Química e Psicanalista Clínica
Muitas vezes, no senso comum, a palavra imparcialidade é confundida com frieza ou distanciamento. No entanto, ao longo da minha trajetória como assistente social e psicanalista, aprendi que ser imparcial é, na verdade, uma das formas mais profundas de respeito e entrega ao outro.
Para mim, a imparcialidade não significa ser neutra diante da dor, mas sim ter a disciplina ética de não permitir que meus próprios julgamentos, preconceitos ou valores pessoais nublem a visão sobre a realidade de quem está à minha frente. É um exercício diário de "esvaziamento" do meu ego para que o sujeito possa aparecer por inteiro.
O Desafio da Proximidade: Parentes e Amigos
Um dos maiores desafios da minha profissão ocorre quando a demanda por ajuda surge de círculos próximos, como parentes, amigos ou conhecidos. Nesses momentos, a imparcialidade deve ser aplicada com ainda mais rigor para evitar a injustiça e a desumanização.
Quando permitimos que o afeto pessoal direcione uma decisão técnica ou um conselho clínico, corremos o risco de sermos condescendentes ou, por outro lado, rígidos demais. Colocar a imparcialidade em prática com quem conhecemos significa:
- Reconhecer os limites: Saber quando o meu envolvimento emocional impede uma visão clara e, se necessário, encaminhar o caso a outro profissional para proteger a integridade de quem sofre.
- Evitar o favoritismo: Garantir que o acesso ao cuidado ou à justiça seja baseado na necessidade real, e não no privilégio da amizade.
- Humanizar sem invadir: Tratar o conhecido com o mesmo profissionalismo dedicado a um estranho, garantindo que ele não seja "rotulado" por fatos que conheço de sua vida pessoal fora do consultório ou da assistência.
Onde a Imparcialidade se Aplica na Prática Profissional
Além desses desafios pessoais, vejo essa postura como um pilar em três frentes principais:
- Na Clínica Psicanalítica: Minha função é oferecer um espaço de fala livre. Ser imparcial aqui significa ouvir o inconsciente sem filtros morais, garantindo que o espaço terapêutico seja de liberdade, não de condenação.
- Na Reabilitação em Dependência Química: O estigma é um grande inimigo. Ao atuar com imparcialidade, olho para além da substância; olho para o ser humano. Isso permite construir uma estratégia de cuidado baseada em fatos, e não em julgamentos sobre as escolhas do indivíduo.
- No Serviço Social e Garantia de Direitos: A justiça só é plena quando tratamos os casos com equidade. A imparcialidade me garante a clareza necessária para mediar conflitos de forma justa.
Conclusão
Entendo que a imparcialidade é o que protege o vínculo profissional e evita a desumanização. Ela é o que me permite ser um suporte firme para quem atravessa tempestades. Ser imparcial é, em última análise, dar ao outro o direito de ser quem ele é, oferecendo-lhe a técnica e a humanidade necessárias para que ele encontre seu próprio caminho de cura e autonomia.
Comentários
Postar um comentário