O Erro do Rótulo: Por que Tratar as Facções como Terroristas Pode Inflamar o Brasil Artigo de Opinião por Ginildete Manaia
O Erro do Rótulo: Por que Tratar as Facções como Terroristas Pode Inflamar o Brasil
Artigo de Opinião por Ginildete Manaia
A recente decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas globais, somada ao coro de projetos de lei que tramitam no nosso Congresso, acendeu um debate inflamado. No entanto, vejo com profunda preocupação essa tendência de transmutar criminalidade em terrorismo. Longe de ser uma mera mudança de nomenclatura jurídica, essa guinada conceitual carrega o potencial latente de desencadear uma escalada de violência sem precedentes no território nacional.
O meu principal receio reside na reação pragmática e violenta dessas facções diante do encurralamento institucional. Ao serem elevadas ao status de "terroristas", essas organizações não irão recuar; pelo contrário, a tendência histórica e sociológica indica uma corrida desesperada pelo "tudo ou nada". Prevejo que, para salvaguardar suas rotas transnacionais e blindar suas lideranças, o PCC e o CV deflagrarão uma ofensiva feroz para consolidar o domínio territorial absoluto. Isso significa que comunidades e periferias serão brutalmente invadidas para a eliminação de rivais — como o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Bonde do Maluco (BDM) —, submetendo a população civil a um estado de terror real, imposto como demonstração de poder bélico e controle geográfico.
Essa complexa dinâmica de segurança pública acaba tragicamente instrumentalizada pelo oportunismo político-partidário. Em anos eleitorais, a espetacularização do medo se transforma em moeda de troca valiosa. O discurso da "guerra ao terror" é esteticamente atraente para campanhas políticas porque simplifica um problema socioeconômico crônico em uma narrativa maniqueísta de bem contra o mal. O perigo dessa abordagem eleitoreira é o desvio de foco: abandonam-se as estratégias asfixiantes de inteligência financeira e policiamento comunitário em prol de operações pirotécnicas e militarizadas que garantem audiência, mas que deixam um rastro de sangue e ineficácia a longo prazo.
Minha perspectiva encontra eco direto na análise de autoridades técnicas da segurança pública brasileira. Investigadores de ponta e promotores que combatem o crime organizado na raiz alertam que tratar o narcotráfico como terrorismo é um erro de diagnóstico. As facções brasileiras operam pela lógica capitalista do lucro e do mercado, não por ideologia político-religiosa. Alterar esse enquadramento altera também a resposta estatal: migra-se de uma abordagem de polícia e asfixia patrimonial para uma lógica de guerra e forças de defesa. Isso não apenas fragiliza as garantias constitucionais e abre margem para leis de exceção nas periferias, como também coloca em risco a nossa própria soberania nacional, abrindo precedentes para sanções econômicas estrangeiras e intervenções unilaterais.
Em suma, a importação desse selo de "terrorismo" funciona perfeitamente como retórica eleitoral e propaganda punitivista, mas falha miseravelmente como política pública de segurança. Se o Estado optar por combater o crime organizado sob a ótica da guerra total, as facções aceitarão o convite. O resultado não será a paz social, mas sim a transformação definitiva das nossas comunidades em palcos de uma guerra assimétrica, onde a ponta mais fraca — o cidadão comum — pagará o preço mais alto.
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