O Dia do Descobrimento do Brasil e a Reflexão Sobre a Exploração Atual – 22 de Abril. Artigo de Opinião: Ginildete Manaia
O Dia do Descobrimento do Brasil e a Reflexão Sobre a Exploração Atual – 22 de Abril
Artigo de Opinião: Ginildete Manaia
Acordo hoje, 22 de abril, com aquela sensação de quem esqueceu a torneira aberta — ou melhor, de quem viu a história ser escrita com tinta de pau-brasil e sangue, mas insiste em ler a versão colorida do livro didático. Dizem que "descobri" este lugar em 1500. É fascinante, não é? Eu chego em uma terra com milhões de pessoas, bato o cajado no chão e proclamo: "Vejam só, estava vazio! Que sorte a minha!". É o auge da minha ironia histórica: agir como o hóspede que invade a festa, toma o lugar do anfitrião e ainda reclama que o buffet de recursos naturais está demorando para ser servido.
Eu olho para as caravelas de outrora e vejo que elas apenas trocaram de figurino. Antes, eu buscava ouro e madeira; hoje, o figurino é mais "moderno", corporativo, com termos em inglês, mas a sede é a mesma. Sinto um amargor ao perceber que, em pleno 2026, a minha mentalidade de "explorador" continua mais viva do que nunca. Eu mudei os espelhinhos por algoritmos e promessas de progresso, mas a lógica da extração permanece intacta.
O que mais me dói na minha própria hipocrisia é o cinismo de falar em "liberdade" enquanto mantenho as correntes invisíveis. Eu olho ao redor e vejo que a escravidão não foi embora; ela só ficou mais silenciosa, escondida em jornadas exaustivas, no trabalho análogo ao escravo que ainda insisto em ignorar para manter o meu conforto, e na desigualdade que trato como "mérito". Eu, o descobridor, continuo colonizando o futuro das pessoas, extraindo o suor de quem já estava aqui e de quem veio depois, sempre em nome de uma civilização que parece nunca chegar para todos.
Refletir sobre o hoje é admitir que meu "descobrimento" foi, na verdade, o início de um inventário de bens que nunca me pertenceram. Eu celebro a data, mas sinto o peso de saber que o Brasil ainda luta para se descobrir de verdade, para se livrar dessa minha herança de exploração que insiste em tratar gente como mercadoria e terra como despojo.
Talvez a verdadeira descoberta aconteça no dia em que eu parar de olhar para este país como um mapa de tesouros a serem saqueados e passar a enxergá-lo como o lar de quem cansa de ser explorado por mim. Até lá, sigo aqui, com minha certidão de nascimento nas mãos, fingindo que não vejo as cicatrizes que eu mesmo ajudei a abrir.
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