21 DE ABRIL: O SAL DA TERRA E O AÇÚCAR DOS CORRUPTOS — UM BRINDE AO MARTÍRIO DE ONTEM E ÀS FALCATRUAS DE HOJE. Por: Ginildete Manaia
21 DE ABRIL: O SAL DA TERRA E O AÇÚCAR DOS CORRUPTOS — UM BRINDE AO MARTÍRIO DE ONTEM E ÀS FALCATRUAS DE HOJE
Por: Ginildete Manaia
Assistente Social, Especialista em ABA e Docência do Ensino Superior
Se eu pudesse convidar Joaquim José da Silva Xavier para um café hoje, em plena Praça dos Três Poderes, imagino que ele pediria para ser enforcado novamente — desta vez, por livre e espontânea vontade. É fascinante, para não dizer tragicômico, observar como a estética do sacrifício mudou. Em 1792, precisávamos de cordas, sal e baionetas para calar uma ideia. Hoje, usamos o foro privilegiado, as emendas de relator e o cinismo perfumado de quem ocupa as cadeiras que Tiradentes sonhou em libertar.
Eu me pego pensando: como seria a execução de um "inconfidente" moderno? Se Tiradentes vivesse hoje e ousasse denunciar as opressões e as milícias que corroem as nossas instituições, ele não seria levado ao patíbulo. Não, o sistema atual é muito mais sofisticado. A corda de sisal foi substituída pelo assassinato de reputação em massa. O esquartejamento não é mais físico; é burocrático. Dividem-se as verbas, retalham-se os direitos humanos e expõem-se os restos da nossa dignidade em palanques digitais, para que o povo aprenda, pelo medo ou pelo cansaço, o custo de ter esperança.
A ironia é que, enquanto Tiradentes teve seus membros salgados para não apodrecerem rápido — servindo de exemplo —, os nossos políticos atuais parecem mergulhados em açúcar. Eles são doces com o judiciário, amáveis com as falcatruas e experts em transformar violações de direitos em "estratégias de segurança". O contexto paramilitar que hoje se infiltra nas esferas de poder é o avesso do que o Alferes pregava. Ele queria a farda para proteger a pátria da metrópole; hoje, muitos usam o poder e o cargo para proteger o próprio bolso da justiça.
Se Tiradentes fosse julgado neste 21 de abril de 2026, seu processo provavelmente prescreveria em alguma gaveta luxuosa ou ele seria absolvido por uma manobra técnica, desde que, claro, ele tivesse o "contato" certo no partido certo. Mas como ele era apenas um idealista — e idealistas raramente têm bons advogados ou conexões com o orçamento secreto —, o resultado seria o mesmo: a solidão do sacrifício.
Hoje, o feriado não é apenas uma data para o descanso. É um espelho que nos devolve uma imagem grotesca. Celebramos o homem que foi morto pela Coroa porque queria um Brasil livre, enquanto assistimos, passivos, à "coroa" da corrupção sendo passada de mão em mão, com a bênção daqueles que juraram a Constituição.
Tiradentes morreu por muito menos do que nos roubam hoje antes do café da manhã. Que ironia sublime: ele foi o único a assumir a culpa para salvar os companheiros. Hoje, o político moderno é o único a apontar o dedo para o companheiro para salvar a própria pele. O sal de Tiradentes ainda arde na ferida do Brasil, mas o açúcar da nossa atualidade é o que realmente nos está matando por dentro, de diabetes moral.
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