O Invisível Muro da Segregação: Reflexões sobre a Militarização e a Alienação nos Espaços Sócio-Ocupacionais.
O Invisível Muro da Segregação: Reflexões sobre a Militarização e a Alienação nos Espaços Sócio-Ocupacionais
Por Ginildete Manaia
Especialista em Intervenção ABA Aplicada ao Transtorno do Espectro Autista, Pós-graduada em Docência do Ensino Superior com Ludopedagogia, Assistente Social, Técnica em Reabilitação de Dependência Química e Psicanalista Clínica.
Como profissional que transita entre a análise do comportamento, a psicanálise e o serviço social, sinto a urgência de denunciar uma estrutura que muitas vezes permanece invisível: o processo de militarização do cuidado e a consequente alienação nos espaços onde deveríamos promover a vida e a ocupação. O que vemos hoje em muitos espaços sócio-ocupacionais não é inclusão, mas uma segregação sofisticada, vestida com o jaleco da técnica.
A Militarização da Conduta e a Morte da Subjetividade
Quando falo em militarização, refiro-me à imposição de uma lógica de "comando e controle" sobre os corpos neurodivergentes. Nos espaços terapêuticos e ocupacionais, essa mentalidade transforma a intervenção em um campo de treinamento de recrutas.
- O Comportamento como Alvo: Sob essa ótica, o indivíduo é visto como um conjunto de falhas a serem corrigidas. A meta passa a ser o "comportamento padrão", eliminando a espontaneidade e a subjetividade em nome de uma ordem artificial.
- O Adestramento vs. Aprendizado: A militarização substitui o diálogo pela instrução direta. Não se busca entender o porquê de um comportamento, mas apenas silenciá-lo através de reforçadores que agem como moedas de troca em um sistema de obediência.
Alienação nos Espaços Sócio-Ocupacionais
A alienação ocorre quando o sujeito é destituído de sua própria vontade e agência dentro do seu processo de reabilitação ou ocupação. Nos espaços sócio-ocupacionais, o muro da segregação se levanta toda vez que:
- Privilegiamos a Produtividade sobre a Dignidade: Quando o objetivo é apenas tornar o autista "funcional" para o mercado ou para a sociedade, ignorando seu sofrimento ético-político e suas necessidades emocionais.
- Criamos Ilhas de Exclusão: Espaços que se dizem inclusivos, mas que mantêm o indivíduo em atividades repetitivas e isoladas, sem conexão real com a comunidade. Isso é segregação com uma nova roupagem.
O Papel do Analista e do Assistente Social na Desconstrução
Minha atuação como Assistente Social e Psicanalista me obriga a olhar para as relações de poder. Não posso aplicar a ciência ABA sem questionar a quem esse comportamento serve. Ele serve para dar autonomia ao sujeito ou para deixá-lo mais "palatável" para uma sociedade que não quer lidar com a diferença?
- A Ludopedagogia como Subversão: Utilizo o lúdico para romper a rigidez militar. No jogo, as regras são negociadas, há espaço para o erro e para a criação. O brincar é o oposto do comando militar; é onde a alienação perde força para a autoria.
- A Clínica Ampliada: Entendo que meu consultório é o mundo. A verdadeira intervenção acontece na rua, na luta por direitos e na quebra dos estigmas que rotulam a dependência química ou o autismo como "casos de polícia" ou "casos de contenção".
Conclusão: Por uma Prática Libertadora
O muro da segregação é feito de indiferença e de técnicas mal aplicadas que visam apenas o controle social. Minha luta é por uma prática que reconheça a neurodivergência não como um erro, mas como uma forma de existir que merece respeito e espaço real, longe das amarras da militarização.
"A verdadeira reabilitação não acontece na submissão, mas no despertar da consciência do sujeito sobre seu lugar no mundo."
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