Entre o Discurso e a Prática: A Urgência de Romper o Ciclo da Impunidade.
Entre o Discurso e a Prática: A Urgência de Romper o Ciclo da Impunidade
Por Ginildete Manaia
Março se aproxima, trazendo consigo o 8 de março, mês emblemático de luta e memória. Como mulher e profissional que atua diariamente nas frentes de assistência social e reabilitação, vejo chegar esse período com uma mistura de dever de reconhecimento pelos avanços que alcançamos e uma indignação crescente diante do que ainda nos paralisa. Não basta celebrar conquistas se, dentro dos lares e nos corredores das instituições que deveriam nos proteger, a realidade continua sendo de medo, violência e um silêncio cúmplice.
Minha vivência diária me mostra o que as estatísticas muitas vezes tentam suavizar. Quando uma mulher decide quebrar o ciclo, quando ela se posiciona, quando ela busca ajuda nos órgãos públicos, ela deveria encontrar um porto seguro. No entanto, o que vejo com frequência é a revitimização. É doloroso constatar que, ao buscar o sistema de proteção, muitas mulheres se deparam com brechas estruturais — falhas de um sistema que ainda permite que "bons moços", na verdade covardes de mau caráter, utilizem suas influências, conexões e conhecimentos para manipular a justiça.
É inaceitável que, em pleno século XXI, ainda vivamos sob o espectro de um patriarcado que se disfarça de poder e influência para manter o domínio sobre o corpo e a vida feminina. Muitos desses agressores, quando acuados pela lei ou pelo enfrentamento da mulher, valem-se de uma rede de proteção — amigos, parentes, posições sociais — para acreditar que são imunes. O famoso "não dá em nada" é a sentença que alimenta o feminicídio. É esse sentimento de impunidade que faz com que, para eles, a violência seja apenas um instrumento de controle.
O que observo é uma profunda ausência de autocontrole desses indivíduos. Incapazes de lidar com uma mulher forte, que não se submete, que pensa, que cresce e que se recusa a ser manipulada, eles recorrem à força bruta como uma tentativa desesperada de dominar o que jamais esteve sob seu controle. Eles se apresentam na sociedade como seres humanos exemplares, mas, no privado, revelam a face cruel de quem não possui dignidade.
Precisamos falar sobre o sistema investigativo e punitivo. Não basta ter leis; precisamos de rigor na aplicação delas. É urgente que as instâncias de poder limpem seus quadros e garantam que a influência de um agressor não contamine o processo de proteção da vítima. Enquanto houver brechas que permitam que criminosos fiquem ilesos por possuírem "contatos", as mulheres continuarão desprotegidas e o feminicídio continuará crescendo.
Minha luta, e a luta de tantas outras, é para que a lei seja uma barreira intransponível para quem agride, não um convite à reincidência. Não podemos mais aceitar que o "ser homem" seja confundido com o uso da violência. É hora de exigirmos sanções severas e, acima de tudo, o fim da proteção social a quem não merece ocupar espaço em uma sociedade que almeja, minimamente, o respeito aos direitos humanos.
Que este mês de março não seja apenas de flores e homenagens, mas de um basta definitivo contra a cultura da impunidade. A força feminina já não se curva, e não aceitaremos mais que o silêncio do sistema seja o cúmplice da nossa dor.
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