Tráfico vs. Narcotráfico: A Visão de quem Atua na Reabilitação. Por: Ginildete Manaia
Tráfico vs. Narcotráfico: A Visão de quem Atua na Reabilitação
Por: Ginildete Manaia
No meu cotidiano como assistente social, psicanalista e técnica em reabilitação, percebo que os termos "tráfico" e "narcotráfico" costumam ser usados como se fossem a mesma coisa. Mas, no chão da clínica e na realidade social, eles representam mundos distintos. Entender essa diferença é o que me permite atuar com precisão e humanidade.
O Tráfico na Ponta do Lápis
Para mim, o tráfico de drogas é a face visível e, infelizmente, a mais vulnerável desse crime. Ele é o ato de comercializar, guardar ou transportar a substância. Na minha prática, vejo que o tráfico local é muitas vezes o refúgio trágico de quem já perdeu tudo para o vício. É o pequeno comércio, operado por pessoas que, em muitos casos, cruzaram a linha da dependência para a venda apenas para sustentar o próprio consumo. É um problema de segurança, sim, mas é, sobretudo, um reflexo da nossa fragilidade social.
A Indústria do Narcotráfico
Já o narcotráfico é uma estrutura de outro nível. Eu o defino como a "indústria do crime". Aqui, não falamos de vendas isoladas, mas de uma logística transnacional que controla desde o plantio até a lavagem de dinheiro em paraísos fiscais. O narcotráfico funciona como um Estado paralelo: ele tem poder para corromper, financiar armamentos de guerra e ditar regras em territórios inteiros. Enquanto o tráfico é o varejo da droga, o narcotráfico é o sistema econômico e político que o alimenta.
O Meu Olhar Clínico e Social
Por que faço essa distinção? Porque, como profissional, meu foco está no ser humano. O narcotráfico deve ser combatido com inteligência e força de Estado. Já o tráfico de rua e o usuário que dele se utiliza pedem de nós um olhar de acolhimento e reinserção.
Não podemos tratar a consequência (o tráfico local) sem entender a causa (a engrenagem do narcotráfico). Meu compromisso na reabilitação é justamente com aqueles que se tornaram a peça mais frágil e descartável desse sistema. Entender essa hierarquia do crime me ajuda a lutar por políticas de saúde mental que realmente funcionem, tratando o paciente com a dignidade que ele merece, sem ignorar a complexidade do meio em que ele está inserido.
Destaques para Reflexão:
- Tráfico: Atividade operacional, local e ligada à vulnerabilidade.
- Narcotráfico: Estrutura empresarial, política e transnacional.
- Meu papel: Identificar onde o sistema falha e onde a clínica pode curar.
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