Saúde Mental Não é Calendário: Uma Crítica à Hipocrisia do Sistema. Por: ​Ginildete Manaia

Saúde Mental Não é Calendário: Uma Crítica à Hipocrisia do Sistema.

Por: ​Ginildete Manaia

Especialista em Intervenção ABA aplicada ao Transtorno do Espectro Autista, Pós-graduada em Docência do Ensino Superior com Ludopedagogia, Assistente Social, Técnica em Reabilitação de Dependência Química e Psicanalista Clínica.

​Como psicanalista e assistente social, atuo diariamente no limite entre o sofrimento psíquico e a realidade social. Por isso, não posso aceitar que o cuidado com a saúde mental seja reduzido a um mês colorido no calendário. É um equívoco, para não dizer uma hipocrisia, acreditar que conscientização sazonal substitui políticas públicas permanentes. No Brasil, e especialmente na nossa Bahia, a mente não adoece por acaso; ela adoece pela fome, pelo desemprego e pela violência.

​Eu questiono: como posso falar em equilíbrio emocional para alguém que não tem o que comer dentro de casa? Como exigir saúde mental de um pai ou uma mãe de família oprimidos pelo desemprego ou pela insegurança galopante que nos cerca? A saúde mental está intrinsecamente ligada à dignidade. Sem geração de renda, sem uma educação de base sólida e sem acessibilidade real para autistas e pessoas com deficiência, o discurso do "cuide-se" torna-se vazio e cruel.

​A verdadeira saúde mental nasce da emancipação do sujeito. E não há emancipação onde o sistema impõe um silêncio covarde e arbitrário. Muitas vezes, vejo os direitos humanos serem negligenciados pela própria Justiça e pelo Estado, que tratam o cidadão com uma perversidade institucionalizada. É um sistema que cobra dos mais fracos, mas se cala diante dos poderosos.

​Minha crítica é direta: políticas de saúde mental devem durar o ano todo e precisam ser transversais. Elas passam pela calçada acessível para o cadeirante, pela escola inclusiva para o meu aluno autista e pelo combate à desigualdade que massacra as nossas comunidades periféricas.

​Enquanto a justiça for seletiva e o acesso à qualidade de vida for um privilégio de elite, falar em saúde mental será apenas uma maquiagem para esconder as feridas de uma sociedade doente pela base. Precisamos de menos marketing de calendário e de mais respeito ao ser humano em sua totalidade. A emancipação não espera o próximo mês; ela é uma urgência do agora.

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