O Espelho Partido da Gamboa: Onde a Vista Vale Mais que a Vida. Por: Ginildete Manaia
O Espelho Partido da Gamboa: Onde a Vista Vale Mais que a Vida
Por: Ginildete Manaia
Assistente Social, Técnica em Reabilitação em Dependência Química e Psicanalista Clínica
Olho para a Gamboa e não vejo apenas um cartão-postal. Vejo um campo de batalha silencioso, onde o azul do mar da Baía de Todos-os-Santos contrasta com o cinza do descaso que tenta desbotar a pele de quem ali resiste. Estar cercada pela elite, vizinha do poder e da opulência, não é um privilégio para aquela comunidade; é um alvo nas costas.
Eu sei o que é sentir na pele o peso de ser "indesejável". Vivi isso desde a infância. As marcas das ações policiais — sempre ostensivas, abusivas e carregadas de um ódio que não se explica, mas se sente — deixaram traumas que a maturidade não apaga, apenas ensina a canalizar. Cresci vendo o Estado entrar na comunidade não com direitos, mas com o pé na porta. E o que me revolta é perceber que, décadas depois, o cenário só se sofisticou na sua crueldade.
A elite e os detentores do poder olham para aquele Píer, para aquela travessia e para o Solar do Unhão com cobiça. Para eles, o pobre é um entrave na paisagem, um "detalhe" que desvaloriza o metro quadrado. Existe uma tentativa contínua de expulsão branca, um desejo de varrer para debaixo do tapete quem construiu a identidade daquele lugar. O preconceito é uma hidra de muitas cabeças: ele vem do político, do vizinho de classe média e, dolorosamente, até de quem nega a própria cor para atacar o seu igual.
Hoje, a resistência só permanece de pé porque o silêncio foi quebrado. A mídia, as redes e as vozes que se levantam impedem que o trator da "gentrificação" atropele tudo sem deixar vestígios. Mas a estrutura continua lá, alimentando organizações que crescem nas brechas do poder. Afinal, a máxima nunca falhou: para conhecer o homem, basta dar-lhe poder. E o que temos visto é o uso desse poder para esmagar a dignidade em nome de uma vista privilegiada.
Refletir sobre a Gamboa é olhar para as minhas próprias cicatrizes e entender que a minha luta como profissional, como mulher, filha de mulher preta e descendente de indígenas brasileiros, é a mesma luta de cada família ali presente. Eles não querem apenas a vista; eles querem o nosso direito de existir no que é nosso por direito.
"A ética é o agir humano fundamentado na liberdade e na responsabilidade social." — Maria Lúcia Barroco.
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