A Longevidade sob Suspeita: O Veto que Reforça o Etarismo no Brasil. Por: Ginildete Manaia
A Longevidade sob Suspeita: O Veto que Reforça o Etarismo no Brasil
Por: Ginildete Manaia
Psicanalista Clínica, Pós-graduada em Docência do Ensino Superior com Ludo Pedagogia e Especialista em Intervenção ABA aplicada ao TEA.
O recente veto presidencial ao projeto que ampliava o limite de idade para concursos nas forças de segurança (PM e Bombeiros) me faz refletir sobre uma ferida aberta em nossa sociedade: a desvalorização do indivíduo maduro. Como profissional que atua diariamente com o comportamento humano e as estruturas sociais, vejo que estamos diante de um paradoxo perigoso.
Temos, hoje, uma ciência que nos permite viver mais e melhor. É visível que pessoas na faixa dos 40 ou 50 anos possuem vigor, disposição e, acima de tudo, um hábito de trabalho consolidado. No entanto, enquanto a expectativa de vida sobe, a "validade" do trabalhador para o sistema parece diminuir. Ao barrar essa ampliação de idade, o Estado envia uma mensagem clara de que, após os 30 anos, o cidadão começa a perder sua serventia para o serviço público operacional.
Em minha trajetória acadêmica na docência superior e na ludo pedagogia, observo que a exigência por qualificação é infinita. Cobram-se títulos, especializações e currículos impecáveis. Mas, contraditoriamente, quando o profissional atinge a maturidade intelectual e emocional necessária para exercer funções de alta complexidade, ele esbarra no etarismo. No setor privado, essa exclusão é maquiada pela busca por uma "estética jovem"; no setor público, é blindada por editais anacrônicos.
Não ignoro as particularidades das carreiras militares. É compreensível que o combate exija fôlego. O cenário ideal seria, de fato, que aos 60 anos todos tivéssemos o direito ao descanso e à renda garantida. Mas a realidade do Brasil é a da luta pela sobrevivência e pela inserção em um mercado desigual. Barrar alguém de 35 ou 40 anos, que goza de plena saúde, é desperdiçar um capital humano que possui algo que o jovem ainda não teve tempo de adquirir: o equilíbrio emocional e a capacidade de mediação.
Como especialista em intervenção comportamental e psicanalista, sei que a maturidade traz uma leitura de mundo essencial para lidar com o público e com situações de crise. O vigor físico pode ser treinado, mas a sensibilidade e a prudência são frutos do tempo.
Peco por acreditar que o governo, ao focar apenas no rigor jurídico e na gestão previdenciária, ignorou o impacto psicossocial dessa decisão. Precisamos de um sistema que acolha a nova longevidade brasileira. O descarte sistemático de talentos com base na data de nascimento é uma forma de violência institucional que precisamos, urgentemente, começar a questionar e combater.
Comentários
Postar um comentário